Conheça Gabriela Toloi, a primeira atriz brasileira a participar da série “Doctor Who”

Gabriela Toloi fala sobre sua participação em “Doctor Who”,  uma das séries mais renomadas e antigas do mercado mundial. Na série, Gabriela interpreta  Jamila Velez, uma vlogueira que investiga os mistérios  do episódio “Praxeus”. Ela contracena diretamente com Jodie Whittaker, protagonista da temporada.

A atriz descobriu sua paixão pela dramaturgia aos 15 anos, quando decidiu desenvolver seus talentos em grupos locais de teatro musical. Em seguida, viajou para Nova York para aperfeiçoar o inglês e fazer um curso de teatro musical na New York Film Academy. De volta a São Paulo, aprendeu espanhol, estudou na Escola de Atuação Wolf Maya e na Universidade de São Paulo (cursando Artes Cênicas em Interpretação Teatral), e participou de muitas peças independentes e peças de canto em uma das maiores cidades de entretenimento da América do Sul. 

Foto: Jennie Scott

Em 2016, após pouco tempo em Los Angeles participando de workshops na Academia Americana de Artes Dramáticas e no Ivanna Chubbuck Studio, estrelou a série PSI da HBO, em que viveu Aurora Sampaio, protagonista da primeira história da terceira temporada e teve uma recepção e um reconhecimento grande da mídia e do público. Atualmente mora em Londres, onde se formou no curso de pós-graduação de atuação profissional no Drama Studio London

Além de falar sobre sua participação na série, Gabriela também nos contou sobre o período de quarentena na Europa, sobre a peça que está produzindo no Off-West End, a importância da atuação em sua vida, e muito mais!

Confira a entrevista completa!

Latinos Brasil: Gabi, como está sendo esse período de quarentena aí na Europa? Com que você está ocupando seu tempo livre?

Gabriela Toloi: A adesão à quarentena abaixou um pouco, por conta do clima estar muito bom e já fazer muito tempo que estamos isolados. Mas depois que o Primeiro Ministro teve coronavírus, o público entendeu a importância de ficar em casa, embora ainda hajam casos de pessoas passeando na rua. É importante lembrar que devemos continuar isolados, a Inglaterra deve ficar mais três semanas nesse regime. 

E uma coisa que acho muito bonita é que toda quinta-feira às 20h, todo mundo sai na soleira da porta ou na janela e bate palmas, panelas e buzina para o sistema de saúde daqui, e os trabalhadores do sistema, médicos e enfermeiros. Acho muito necessário agradecer esses profissionais, e esse é um jeito seguro e legal de dar crédito às pessoas que merecem.

Eu tive momentos em que fui muito produtiva e momentos em que fiquei desmotivada com tudo. Hoje eu estou lendo bastante livro, li “O Tatuador de Auschwitz”, um best-seller muito bonito e sensível baseado em uma história real, e agora estou lendo a sequência dele.

Também toco piano, e acho que junto com outras pessoas me descobri uma grande mestre-cuca, todos os anos de Masterchef estão vindo à tona. Tenho cozinhado bastante, feito bolos. Alguns ingredientes, principalmente a farinha, ainda estão difíceis de encontrar, mas os mercados estão começando a ficar mais cheios. Além disso tenho descansado bastante, refletido, atualizado meu material profissional, buscando ser produtiva, mas respeitando meu receio e ansiedades. 

LB: Qual a primeira coisa que você pretende fazer após o fim da quarentena? 

GT: Eu queria muito ir ao teatro ou ao cinema, fiquei muito chateada que Mulan da Disney foi adiado. Mas tenho a sensação de que teatros e cinemas vão ser os últimos a abrir. Quero encontrar meus amigos, que não encontro desde o começo de março, quero muito sair pra tomar uma coca-cola, comer um fast food. Também quero viajar para o Brasil e ver minha família, mas acho que viagens internacionais também não vão acontecer tão cedo.

LB: Recentemente você fez uma participação na série “Doctor Who”, como foi ser a primeira atriz brasileira a participar dessa série tão renomada?

GT: Foi incrível, já era incrível por si só e a hora que descobri que eu era realmente a primeira brasileira a fazer parte foi surreal. Quando falamos que queremos ter uma carreira internacional, no Brasil, as pessoas falam “ah muito difícil, quase impossível, as pessoas que conseguiram já tinham uma carreira no Brasil e eram famosas”. Eu fiz o caminho contrário, minha carreira nacional estava começando. Eu fui, tentei e aconteceu. Acho importante para abrir portas, e penso que estou criando motivação para várias pessoas que querem fazer o mesmo. Fui mais ou menos sozinha, não tive amigos para consultar, foi meio na cara e na coragem. Adoro quando pessoas me mandam mensagem perguntando como foi, porque gosto de ser esse ponto de consulta para elas.

E de resto, fazer parte da série, a produção é incrível, enorme. Viajei pra África do Sul para gravar o episódio, conheci um país novo lindo, quero até voltar e conhecer outros lugares.

O pessoal da equipe é muito competente e inteligente. Acho que aprendi muito mais no set de filmagem de “Doctor Who” do que em todos os meus anos de escola. O nível de profissionalismo é inacreditável, foi uma grande honra mesmo fazer parte de um trabalho na Inglaterra, um trabalho da BBC e esse trabalho ser “Doctor Who”. Como a gente brinca, eu zerei a vida!

LB: Tem alguma curiosidade do momento das gravações que você possa nos contar? Seja divertido ou triste?

GT: A maioria das minhas cenas foi gravada de madrugada, então eu geralmente era buscada no hotel à 1h da manhã e gravava nesse período, isso foi bem diferente. Uma curiosidade engraçada é que na cena em que eu estou morta no hospital, acordo, o vírus toma o meu corpo e eu explodo. Fizemos vários takes daquela cena, só que ela demanda muito fisicamente, porque eu estava praticamente fazendo uma série de abdominais a cada cinco minutos. Acho que no quinto take, meu músculo do abdômen simplesmente cedeu, eu perdi a força e caí para trás. Só que tinha um segurador de pescoço na cena, e ele saiu do lugar, então quando caí eu bati a cabeça com muita força e apaguei. Durou só uns dois minutos, mas o barulho da batida foi tão forte que todo mundo ficou em silêncio e só se ouvia um ‘uff’. O pessoal ficou super preocupado, fui muito bem tratada, vieram brigadistas medir minha pressão. A Jodie [Whittaker], a Doutora, foi a primeira pessoa a me socorrer, veio ver se estava tudo bem. Foi assustador na hora, mas no fim foi uma memória engraçada.

LB: Você está produzindo uma peça no Off-West End, como está sendo o processo criativo desse projeto? Já tem uma data prevista para estreia?

GT: Eu tenho um amigo que trabalhava comigo para a Disney Store, ele é jornalista e escritor. Eu já queria montar uma companhia teatral com meu namorado, que também é ator, mas não tínhamos um plano ainda. A gente não sabia se comprava os direitos de uma peça ou fazia uma original, que é mais legal e um processo mais tranquilo. Em uma reunião com meu amigo tivemos várias alternativas de texto, inclusive uma das ideias era adaptar o conto ‘O Lixo’ de Luis Fernando Veríssimo. No final escolhemos uma história autoral do meu amigo chamada Bad Harvest (‘colheita ruim’, em português), que ele levou a um concurso e ganhou em segundo lugar. É uma história distópica,  tem muito do universo do varejo aplicado a uma sociedade, parecida com Wall-E. 

Em relação à parte de fomento e colocar a peça para rodar no circuito teatral, estávamos quase começando a entrar com essa parte do projeto quando começou o isolamento. Não temos data prevista, mas gostaríamos de estrear esse ano pelo segundo semestre. Se não rolar, já que os teatros realmente são ambientes de muito risco de contágio, pensamos em juntar atores e fazer audições por meio de Zoom, Hangouts, coisas por aí.

LB: Qual a importância da atuação em sua vida?

GT: Não só atuação, mas a arte é importante na minha vida. Eu comecei como pianista e cantora, comecei a fazer coral quando era pequena, com uns 6 ou 7 anos e migrei para o teatro. A arte possibilitou que eu me comunicasse com as pessoas. Crescendo, através das minhas peças e músicas, eu sentia que conseguia me expressar melhor com as pessoas, comunicar o que a Gabriela pensa e quem a Gabriela é através de personagens, e que as pessoas me ouviam quando falava. Me descobri uma boa comunicadora.

Crédito: Miro Arva

LB: Você sente vontade de voltar ao Brasil para participar de produções nacionais?

GT: Super, inclusive durante esse período recebi vários convites para projetos nacionais, para trabalhar com pessoas que já trabalhei e pessoas novas trazendo projetos novos e fiquei super feliz. Eu trouxe um pouquinho do Brasil pra cá, aprendi o que os ingleses tinham pra me ensinar e agora quero levar de volta. Atuar na própria língua também é uma delícia, acho muito gostoso poder me comunicar na minha língua mãe. Apesar de ter me habituado a atuar em inglês, a gente consegue se comunicar emocionalmente muito melhor na nossa língua materna.

Os projetos brasileiros são muito bons, ele não estão atrás dos projetos internacionais. O Brasil está crescendo nesse meio, e sempre foi pioneiro nas novelas. Seria um prazer poder fazer parte.

PING PONG LB

Um filme: Edward Mãos de Tesoura

Uma série: The Alienist

Um livro: O Corcunda de Notre-Dame

Um sonho: Cantar com o Brian May tocando guitarra

Uma inspiração: Johnny Depp foi quem me inspirou a ser atriz e os métodos que estudei foram os métodos que ele estudou

Uma atriz nacional: Fernanda Torres

Um ator internacional:Johnny Depp

Música do momento: qualquer uma do James Bay, mas se tivesse que escolher seria ‘Need the Sun to Break’

E pra finalizar, mande uma mensagem para todos leram a matéria até aqui: A mensagem que mando pro pessoal que lê a matéria até aqui é: pra todo mundo que tem vontade de ter uma carreira internacional, seja ela nas artes ou em qualquer setor, nunca é tarde para tentar e começar. O primeiro passo é sim o mais difícil, mas é super possível. Dá muita saudade de casa, mas a recompensa é muito grande quando as coisas dão certo.

Eu queria motivar todo mundo que está começando na carreira de atuação, que assiste séries como “Doctor Who” e pensa ‘queria tanto ser o Doutor, queria tanto estar nessa série’. É uma profissão difícil mas todas as profissões são difíceis, basta a gente ter paixão e determinação e tudo se ajeita. 

Queria deixar esse recado, dizer que tenho muita saudade do Brasil e que gostaria de conhecer todo o pessoal que é fã de “Doctor Who” na minha próxima visit

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