5 episódios de BoJack Horseman que quebram expectativas - Latinos Brasil | www.latinosbrasil.com Latinos Brasil | www.latinosbrasil.com

5 episódios de BoJack Horseman que quebram expectativas

Com menos de um mês para o lançamento da quinta temporada de BoJack Horseman, nada melhor que relembrar alguns dos episódios mais marcantes.

A série animada da Netflix, atualmente com 4 temporadas, gira em torno de BoJack Horseman (Will Arnett), um ator que fez fama com uma sitcom nos anos 90, mas que agora está afundado no alcoolismo, nas drogas e na depressão. Decidido a se tornar relevante novamente, BoJack, assim como seus amigos, precisa lidar com os conflitos da vida adulta.

BoJack Horseman tem uma premissa inusitada, retratando um mundo onde animais antropomorfizados convivem lado a lado com seres humanos. Muito do humor vem das características animais dos personagems, das tiradas ácidas que criticam Hollywood – que vira “Hollywoo” depois de roubarem o D – e a cultura norte-americana,  e também do pessimismo existencial que aflige BoJack e as pessoas ao seu redor.

A série subverte a estrutura tradicional das sitcoms, que se apoiam na ideia que no final do dia tudo estará bem novamente, independente do que aconteça. Dessa forma, as consequências das ações dos personagens se acumulam ao longo das temporadas. Essa abordagem realista (apesar das situações absurdas) é o que deixa muita gente vidrada.

Os episódios a seguir apresentam novos pontos de vista, personagens agindo de forma inesperada ou apenas chamam atenção por seguirem formatos diferentes do convencional. A maioria deles é das últimas temporadas, então haverão spoilers.

1. S03E04 – “Fish Out of Water”

Sinopse: BoJack vai ao Pacific Ocean Film Festival para a estreia de “Secretariat”. Lá, ele tenta se desculpar com Kelsey (Maria Bamford) por causar sua demissão, mas acaba responsável por levar um bebê cavalo-marinho de volta para o pai.

A série, que se apoia firmemente no diálogo, ganha um episódio marcado por gags visuais. O cenário submarino é perfeito para esse formato, pois supostamente impede a comunicação entre os personagens. Além disso, o mundo embaixo d’água funciona diferente do que estamos acostumados e os roteiristas extraem o máximo de humor de cada situação, até mesmo homenageando clássicos do cinema mudo. O uso de textos em placas e jornais ajudam a entender o episódio, mas as melhores situações vêm das imagens.

Além disso, vemos BoJack tomando responsabilidade pelo bebê perdido, que ele não pode simplesmente deixar para trás. Sua dedicação a ele e o tempo que os dois passam juntos cria uma conexão, mas esta precisa ser desfeito quando o bebê volta para casa. O sentimento que isso provoca é o que faz o ator enfim encontrar as palavras certas para Kelsey, uma amizade que se desfez por conta de sua negligência e imaturidade. Infelizmente, as palavras não chegam até ela.

2. S03E11 – “That’s Too Much, Man!”

Sinopse: BoJack chama Sarah Lynn (Kristen Schaal) para farrear, numa tentativa de esquecer seu fracasso nos Oscars. Depois de arruinarem uma reunião do A.A., Sarah Lynn conta como aprendeu a limpar a consciência se redimindo. BoJack resolve então, na companhia da ex-colega de trabalho, visitar as pessoas com quem ele tem pontas soltas.

O episódio chama atenção por pular várias cenas devido aos blackouts de BoJack, que precisa (e portanto a audiência) ser lembrado do que aconteceu anteriormente. Dessa forma, perdemos a noção do tempo, e os dias dias viram semanas e meses sem que percebamos. É  um interessante recurso para mostrar a confusão de BoJack, como as drogas e a culpa afetam seu discernimento. Ele está em um de seus piores momentos aqui, com Sarah Lynn como única comapanhia depois que os seus amigos se afastaram. Os blackouts são conhecidos de outros episódios, mas aqui são levados ao extremo.

Apesar da ação ser centrada em BoJack, o grande destaque do episódio é Sarah Lynn. Até então uma personagem irreverente que só servia de alívio cômico, ela aos poucos revela sua fragilidade. Seu sonho abandonado de ser arquiteta, os impactos da carreira e da influência de BoJack desde sua infância, tudo isso culmina numa crise em que a celebridade confessa não acreditar em rendenção para si mesma.

Isso torna muito mais impactante a cena de sua morte no final do episódio. Quando vemos outra face da ex-cantora pop, acreditamos que talvez ela possa tomar um rumo diferente. Porém, é tarde demais, e as consequências de uma vida irresponsável cobram seu preço.

Apesar de nos surpreender, o episódio traz um grande foreshadowing para a morte de Sarah Lynn: a primeira cena abre com uma releitura do quadro “Ophelia”, pendurado acima da cama de Sarah. Nele, a celebridade foi pintada substituindo Ofélia, personagem de Shakespeare que enlouqueceu e se afogou num rio.

3. S04E02 – “The Old Sugarman Place”

Sinopse: Depois de abandonar o projeto “Ethan Around” e sumir do mapa, BoJack vai parar no Michigan, na antiga casa de veraneio de seu avô materno. Lá ele conhece seu vizinho Eddie, uma libélula rabugenta que oferece ajuda para reparar a casa caindo aos pedaços.

Os acontecimentos do presente, são intercalados com flashbacks do passado, evocados pelas memórias contidas na casa. Essas memórias mostram os Sugarman na época da infância de Beatrice, mãe de BoJack, e as crises que a família enfrenta quando o filho mais velho morre no Vietnã. Enquanto isso, BoJack se esconde do mundo na casa vazia, sobrecarregado pelo remorso. A dor pela perda do filho e a decadência mental da Sra. Sugarman se refletem no presente através de Eddie, que também ficou mentalmente perturbado após a morte de sua esposa. Por isso, o “dueto” entre Eddie e a Sra. Sugarman tem grande peso emocional.

A casa de veraneio é o elemento central do episódio. As histórias dos personagens giram em torno dela. Muitas interpretações podem ser feitas a partir daí. O lugar é um refúgio, mas também um problema. BoJack tenta consertar tudo sozinho, mas fracassa; é só quando ele aceita ajuda de alguém que o lugar começa a ficar habitável. Depois de terminar, a sensação de dever cumprido se instala, algo que ele não sentia há muito tempo. Entretanto, Eddie se revela alguém instável e perigoso, o que faz BoJack  demolir o lugar e voltar para Hollywoo.

Assim, a casa reformada, resultado de uma relação que se tornou tóxica e assombrada pela dor de uma família desnaturada, é destruída. Esse momento traz grande satisfação, apesar de ser um tanto doloroso. Isso mostra que mudanças, ainda que para melhor, são difíceis e requerem desapego das coisas antigas.

4. S04E09 – “Ruthie”

Sinopse: Num futuro distante, uma garotinha chamada Ruthie conta sobre um dia terrível na vida de sua tataravó, Princess Carolyn (Amy Sedaris). No mesmo dia, BoJack e Diane (Alison Brie) procuram a certidão de nascimento de Hollyhock.

Diferente dos outros episódios, esse é contado em retrospectiva, com Ruthie falando do passado para sua turma da escola. Comicamente, ela cita Diane e BoJack, que não fazem parte da história principal. Há também uma sequência fotorrealista mostrando a suposta história do colar de Princess Carolyn.

Ao contrário do que somos a levados a pensar, Ruthie não é uma narradora confiável. Ela assegura que sua história tem um final feliz, o que nos dá uma certeza falsa. Ao ver o sofrimento de Princess Carolyn, que permanece forte apesar das perdas e decepções, esperamos por esse momento de catarse. Quer dizer, é impossível que tantas coisas ruins aconteçam sem  nenhuma resolução, certo? Porém, no fim a gata revela que Ruthie era apenas uma fantasia que ela criou para se sentir melhor, e a catarse nunca chega.

BoJack Horseman é uma série em que estamos acostumados com as coisas nem sempre acabarem bem. Porém, quando o prometido final feliz revela-se uma fantasia, o peso da realidade volta, mais difícil de engolir que antes.

5. S04E11 – “Time’s Arrow”

Sinopse: De saco cheio, BoJack leva a mãe para uma casa de repouso em péssimas condições. Uma série de flashbacks mostra a vida de Beatrice Sugarman (Wendie Malick) antes, durante e depois de seu casamento com Butterscotch Horseman.

Aqui revisitamos o final do episódio anterior, dessa vez da perspectiva confusa de Beatrice. Saltando entre diferentes lembranças, tão detalhadas quanto a memória da velha senhora permite, exploramos mais a fundo os eventos que formaram a pessoa que ela se tornou. A narrativa vai e volta no tempo e se mistura com recortes do presente. Além disso, os detalhes visuais das cenas são exagerados e distorcidos. Essa estrutura ilustra a realidade de alguém que sofre de demência de forma inovadora.

Dessa forma, entramos em contato com outra Beatrice Horseman, alguém diferente da mãe verbalmente abusiva e amarga. Conhecemos a jovem que cresceu em uma família desestruturada, presa às exigências da sociedade. Compreendemos porque ela se apaixonou por Butterscotch, um rebelde que representava o oposto dessa realidade. Nada disso ameniza nem justifica a péssima atitude de Beatrice, mas a coloca numa luz mais humanizada.

Navegando as memórias, descobrimos a origem das frases sem sentido que a senil Sra. Horseman diz. Conhecemos a identidade de Henrietta (que tem o rosto rabiscado, provavelmente por ser uma memória dolorosa) e sua relação e a verdadeira origem de HollyHock. Tudo se conecta e podemos ver claramente as relações de causa e consequência.

E o mais surpreendente é a atitude de BoJack no final do episódio. Até então, ele estava determinado a deixá-la apodrecer num quarto escuro. Entretanto, quando ela tem um momento de lucidez e ele tem a oportunidade de expressar seu ódio, ele decide dar-lhe lembranças boas para preencher o vazio de seus últimos anos de vida. Ao contrário da audiência, BoJack não conheceu o passado de Beatrice; sua mudança de atitude vem da simples compaixão pelo estado da mulher, o que torna o momento ainda mais impactante.

 

Há muitos outros episódios que poderiam estar nessa lista, mas não caberiam aqui.

E aí? Deu vontade de reassistir?

A 5ª temporada chega à Netflix dia 14 de setembro.

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *