Naiá fala sobre sua carreira como cantora

Naiá é uma cantora contemporânea. Sua miscigenação cultural, sua paixão pela arte e sua energia forte e visceral trazem uma nova bossa a canções já conhecidas do público.  Em suas interpretações, as canções são apresentadas com uma roupagem completamente reformulada, trazendo claramente o estilo e a identidade da artista.

Este ano, ela lançou o projeto “Caetane-se”, que conta com releituras de clássicos de Caetano Veloso, cada qual representada por uma cor diferente.

Confira nossa entrevista sobre a carreira da cantora e seu mais novo projeto:

 

LB: Naiá, você começou a estudar música desde a sua juventude (16 anos aproximadamente). Como que surgiu sua paixão pela música e o que te motivou a seguir esta carreira?

Naiá: Eu acho que a vida. A gente começa a cantar e dançar, essa coisa de cantar e dançar está em todo mundo. Todo mundo é capaz de cantar e dançar e fazemos muito isso quando a gente é criança. Minha mãe é bailarina. Então eu sempre convivi muito nesse ambiente, sempre acompanhei muito os processos criativos, como que ela compunha, eu estava sempre lá com ela. Um pouco antes dos 14 anos eu comecei a estudar, sempre tentei estudar mais música mas eu tenho muito problema com foco, disciplina, então eu não consegui ser uma pianista.. Sou meio preguiçosa talvez.. Talvez algum problema por falta de ritalina, que todas as crianças estão tomando hoje.. Mas naquela época não tinha essa informação toda. Eu tenho dislexia, por exemplo, e eu só fui ver a entender o que era isso agora “véia” sabe.. Quando eu estava no colegial eu escrevia errado porque eu mudava as letras e era como se eu fosse burra. Mas então eu comecei a fazer aula de piano, violão, mas mais por uma coisa de prazer e curtir mais música. Isso cresceu comigo e é o meu ambiente. Depois comecei a fazer aula de canto erudito e eu queria ser cantora de ópera que eu achava “chiquérrimo”. Na hora de escolher a faculdade que eu queria fazer, eu quis entrar “na onda” totalmente ao contrário, então eu fui fazer economia porque eu não queria ter instabilidade, porque a classe média aqui, na qual eu faço parte, o mínimo não é o mínimo. Então eu precisava fazer outras coisas pra conseguir fazer arte. Então fui diretamente pra economia, por ser uma faculdade bem conservadora, uma coisa que eu achava que poderia me dar uma estabilidade. Depois eu descobri que a instabilidade está dentro de mim e que tenho que ser estável ou não. Mas com 28 anos eu percebi que não tinha mais sentido trabalhar como economista. Não sei se você acredita em retorno de saturno, mas esse momento com 28 foi retorno de saturno e eu falei “cara, o que que eu estou fazendo da minha vida. Perdendo esse tempo. Trabalhando 6 horas, 8 horas por dia. Fazendo planilhas pra alguém que eu nem sei qual é o objetivo”. Então mudou muita coisa na minha cabeça nessa fase e eu fui fazer teatro, que eu acho que todo mundo deveria fazer teatro. É uma coisa incrível que acontece e eu acabei voltando a ter contato com a música, com o corpo, com essa coisa de performer, que é onde eu me identifico, onde eu me encaixo mais. Eu digo que eu não sou musicista, eu sou performer, que é um lugar bem borrado da arte que tem tanto atuar, interpretar, cantar, dançar. Então a Naiá não é só cantora. É cantora também mas junto com todas essas outras coisas. Depois que eu voltei a fazer teatro, consegui uma banda pra cantar em eventos e ganhar dinheiro. Eu cantava em festas de empresas, casamentos, festas de final de ano. Então há 4 anos atrás eu comecei essa pesquisa da Naiá. Organizar o que ela quer passar para o público agora. E aí eu peguei a música “Odara” do Caetano, isso 4 anos atrás, e fui fazendo essa pesquisa e veio essa música mais eletrônica, ao mesmo tempo com muito tambor, muita percussão. Foi assim, natural. Demora mas acontece. O processo é bem embrionário, bem verdadeiro. É muito mais fácil não dar opiniões do mundo, andar no meio de todo mundo, muito mais fácil, mas para mim ficou impossível. Eu precisei me assumir, eu precisei entender que eu não era economista e que a arte está latente, está na flor da pele, eu não tenho opção! (risos)

LB: Você é Brasileira com sangue guarani, alemão e africano. Como você incorpora essa miscigenação na sua arte?

Naiá: Total. Eu penso, essa coisa do tambor é muito tribal, muito dos rituais de tribo. Então toda música tem muito tambor, muita percussão que é essa coisa bem ritualista. E o alemão é total eletrônico, eles são super “high tech”, então tem tudo a ver com a música. Ao mesmo tempo eu fui criada como negra. Por mais que tenha essa história do colorismo hoje em dia, eu não sou negra mas eu sou mulata, cabocla. Eu cresci em uma família muito branca de austríacos com alemães. Mas fui sempre tratada como negra, minoria, então nas minhas músicas tem essa coisa dessa resistência também porque eu me enquadro nessa minoria, eu me inspiro e faço parte dela. Eu não sou branca, loira de olho azul. Eu sofri o que a minoria sente. Você alternativa vai em um lugar que é mais “quadrado”, mais tradicional, as pessoas te olham julgando. Antigamente eu baixava a cabeça, mas hoje eu olho e digo “Tamo aqui! Vão ter que me olhar porque eu existo!”.

LB: Sobre o seu EP “Caetane-se”, como surgiu a ideia de gravar diversas releituras de Caetano?

Naiá: Ano passado eu estava em um show que se chamava “Vozes em mim” e eu coloquei “Tigresa” no repertório e nós já tínhamos o trabalho com “Odara” que foi a primeira música que eu comecei a trabalhar e como já estávamos com duas e Caetano estava vibrando bastante neste conjunto musical e então a gente pensou em fazer um EP dele porque ele é maravilhoso, incrível, uma fonte de muito axé e aí a gente escolheu mais músicas que estavam mais orgânicas pra nós, as que estavam mais fluindo, então fechamos o repertório desse EP. Está muito bom, gosto, alto astral, muito orgânico. Não deixa de ser o Caetano, a música dele, mas tem uma personalidade nossa.

LB: Você lançou um videoclipe da sua releitura de “Tigresa” de Caetano. Como foi o processo de escolha para gravar o videoclipe dessa música?

Naiá: A gente na verdade está fazendo uma série de videoclipes, então “Tigresa” é maravilhosa porque tem os dois lados. A gente usa uma referência de cores, então cada videoclipe e cada música tem uma cor, “Odara” é uma cor lilás. A cor lilás representa mudança. “Tigresa” é amarelo que é do plexo solar, então essa coisa do peito, do instinto, da sabedoria que tem no bicho tigresa e na mulher. Então a gente colocou bem essa contraponto da coisa urbana que são aqueles muros, a rua, as calçadas, e tem aquele lugar que eu estou mais introspectiva, que são os dois lados da moeda e a gente tem vários lados.

LB: Conta pra gente um pouco do que ainda está por vir e o que podemos esperar de Naiá no futuro..

Naiá: Eu queria convidar vocês para acompanhar no Instagram, que é sempre onde a gente divulga, também no Facebook, e o nosso próximo lançamento é a música “Não enche”.

PING PONG

Uma música que não pode faltar na sua playlist? Quem é você- Karin Martins.

Um artista que você gostaria de fazer uma colaboração? Caetano.

Um Sonho? Conseguir ser feliz.

Uma qualidade sua? Honestidade, Lealdade.

Um defeito? Cabeça dura.

Uma palavra que defina o resultado de “Caetane-se” para você? Realização, felicidade.

Confira o videoclipe de “Tigresa”:

Entrevista por: Gabriela Perez

Agradecimento: Tudo em Pauta

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Publicitária e Editora-Chefe do Latinos Brasil.

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