A Netflix deixou de ser apenas um serviço de streaming e passou a produzir suas próprias séries e filmes já faz um tempo. Isso não só revolucionou a televisão como a conhecemos, mas também trouxe ao mundo séries excepcionais como Stranger Things, Unbreakable Kimmy Schmidt e, uma das mais esquecidas: Grace and Frankie.

A série acompanha as mudanças nas vidas de Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin), após seus respectivos maridos, Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston), anunciarem que são gays e querem o divórcio para casarem um com o outro.

Ela possui um roteiro bem construído, é engraçada, mas sabe ser séria e emocionante nos momentos certos. Apesar do foco ser na Grace e na Frankie (óbvio) todos os personagens possuem suas próprias narrativas. Grace and Frankie é divertida, possui uma equipe de ouro (Jane Fonda, Marta Kauffman, Martin Sheen) e de quebra ainda trata de assuntos que a sociedade escolheu esquecer, como os problemas enfrentados pela atual geração de 60, 70 anos que parece ser a mais ativa e saudável até então.

Apesar de tudo isso, Grace and Frankie está longe de ser tão popular quanto sucessos mais novos da Netflix. Mas como a série permanece firme e confirmou sua 5° temporada para abril de 2019, aí estão 5 motivos pelos quais Grace and Frankie já deveria estar na sua lista de série favoritas.

 

1- Uma série sobre a meia idade… para todas as idades.

Grace and Frankie possui uma característica que sempre foi rara na televisão: seu elenco principal é formado por idosos. Esse protagonismo dá margem para tratar de problemas sofridos por essa geração que são frequentemente esquecidos pelo resto da sociedade. A série faz isso de forma ousada e original, trazendo à tona não só problemas frequentemente explorados, como a dificuldade de ter uma mente ainda lúcida em um corpo não mais jovem, mas também coisas como sexo na maior idade (com foco nas mudanças do organismo feminino) e a dificuldade de ser levado a sério por gerações mais jovens. Tudo isso é mostrado através dos olhos das duas mulheres de 70 anos, bem como seus ex-maridos e seus amigos.

Ainda assim, Grace and Frankie consegue a atenção da população jovem (em especial os millennials, ou geração Y). A revelação de seus maridos obriga nossas protagonistas a se reinventarem em uma fase da vida onde se espera que tudo esteja estável. Elas são obrigadas a trocar de casa, voltar a ir a encontros, repensar a aposentadoria e a encarar a incerteza de como serão seus próximos anos. Apesar de terem quase o triplo da idade e estarem estáveis financeiramente, Grace e Frankie acabam se tornando exemplos para mulheres em seus 20 anos, que estão começando a lidar com a responsabilidade de construir seu futuro.

 

2- Feminismo e ativismo na maior idade

Grace and Frankie é, em sua essência, feminista. Suas duas protagonistas, apesar de já serem mulheres de idade, mostram que estão perfeitamente cientes de que seu espaço na sociedade está aumentando. O roteiro é a prova disso. São tratados assuntos como saúde, liberdade, autonomia feminina, e sobre como é difícil ser levada a sério até por mulheres mais novas. É interessante observarmos a trajetória da Grace, se descobrindo independente e capaz após o divórcio. Boa parte das rimeiras temporadas exploram seu processo de descobrir-se feminista, jornada a tal que várias mulheres podem se identificar. Já Frankie sempre foi ativista e independente e, ao contrário da amiga, sofre muito mais pelo apego emocional ao Sol que pela perda do status de casada. A amizade das duas serve como uma vida de mão dupla, onde elas vão gradualmente aprendendo a reconstruir suas vidas com a ajuda uma da outra (o que inclui fundar uma empresa destinada a produzir e comercializar vibradores especializados para mulheres de mais de 50 anos).

Além disso, outros dos dois personagens principais, Robert e Sol, percorrem outra jornada de transformação, tendo de enfrentar as reações de terem saído do armário e se assumido um casal. Novamente, a idade torna isso ainda mais difícil. Eles não só têm que enfrentar preconceito de amigos e família, mas também seus próprios preconceitos e concepções. Eles são obrigados a se redescobrirem agora que decidiram ir atrás exatamente do que querem, e chegam a participar de protestos LGBT+ e redescobertas sexuais, provando mais uma vez que a série está disposta a explorar seus personagens como seres humanos, com desejos, questões, dúvidas, independente de idade e gênero.

 

3- A Família

Uma característica especial da série é conseguir transitar por diversos enredos e tramas, fazendo com que conheçamos as vidas de todos os personagens. Isso inclui, além dos citados anteriormente, os “filhos”. Nwabudike “Bud” (Baron Vaughn), que trabalha na firma de advocacia de Robert e Sol, Coyote (Ethan Embry), um ex viciado em drogas que está tentando se reestabilizar após ficar limpo, ambos filhos da Frankie e do Sol, além de Mallory (Brooklyn Decker), casada com um médico e mãe de duas crianças e claro, Brianna (June Diane Raphael), que assumiu e firma da mãe e ganha um destaque especial ao longo da série, filhas de Grace e Robert. Os quatro se conhecem desde crianças e é interessante observar como as duas famílias, que sempre foram muito unidas, lidam com a nova conjuntura familiar causada pela revelação de Robert e Sol.

A participação dos filhos não só rende cenas hilárias nas reuniões de família onde se juntam os Hanson e os Bergstein mas também gera novos enredos e tramas que, apesar de serem coadjuvantes, capturam a atenção do telespectador, que passa a se afeiçoar com todos os personagens. Também é interessante notar que a série explica muito sobre os personagens e suas relações entre si sem precisar de muita exposição. Ficamos sabendo de coisas como que a Mallory e o Coyote já tiveram um breve romance e que o Coyote e o Bud são adotados de forma natural, sem abusar de flashbacks ou diálogos expositivos.

 

4- O elenco

Além da brilhante Jane Fonda, contamos com a performance excepcional da Lily Tomlin, que brilha como nunca antes no papel de Frankie. Ela não só captura a excentricidade da personagem em cenas deliciosas de assisti, como ainda fornece uma profundidade emocional que nos permite entender e simpatizar com ela em momentos mais difíceis. Fonda, como sempre, fornece uma performance ao ponto, sempre transitando muito bem entre emoções e entendendo a fundo sua personagem.

Fora elas, contamos com Martin Sheen, com movimento e fluidez e Sam Waterston que cativa a todos como Sol. Dentre os filhos, todos fazem um ótimo trabalho, mas o destaque principal vai para a June Diane Raphael, que além de atriz é comediante e dá a vida a Brianna. A personagem não só fornece comentários e reações hilárias como ainda passa por suas próprias duvidas e altos e baixos, inclusive impulsionando outros personagens a fazerem o mesmo. Todo o elenco é forte e possui uma química incrível. Até personagens que não aparecem em todos os episódios, como Jacob (Ernie Hudson) ou Babe (Estelle Parsons), que apareceu em apenas um episódio (um dos melhores da série) se destacam e contribuem para uma serie ainda mais interessante e divertida.

 

5- As participações especiais

Grace and Frankie também traz breve participações de rostos conhecidos por quem ama tv e cinema. O mais ilustre deles é, claro, Lisa Kudrow, a própria Phoebe Buffay (aka Regina Phalange). A atriz se junta mais uma vez com a produtora Marta Kaufman e faz uma breve participação como Sheree nos primeiros episódios da 4° temporada. A personagem conta com um sotaque caipira over the top e gostos bregas e a interpretação de Lisa Kudrow não só torna tudo mais engraçado como ainda nos leva a imaginar como seriam os Friends aos 50-60 anos vivendo numa casa de praia em Sao Francisco.
Além dela temos Ernie Hudson (Ghostbusters) como Jacob, o charmoso amigo/namorado fazendeiro da Frankie, Peter Gallagher (Enquanto você dormia, American Beauty) como o namorado mais novo da Grace na 4° temporada. A série também confirmou a participação do RuPaul (RuPaul’s Drag Race) na quarta temporada.