Porque estamos todos precisando de um pouco de MPB.

A Ditadura Militar Brasileira foi um regime governamental que se instalou no Brasil de 1964 a 1985. Além de privar o povo do direito de escolher seus representantes, a ditadura censurou meios de comunicação e oprimiu qualquer forma de protesto ou descontentamento popular com o regime. Ela ficou conhecida pelas suas condutas coercitivas de governo como a tortura, o exílio e o autoritarismo.

Apesar de tudo isso, o povo seguia tentando mostrar sua indignação. E uma das formas de protesto encontradas pelos artistas da época foi a música. As canções eram cheias de figuras de linguagem e duplo sentido pra driblar a censura, mas carregavam mensagens de liberdade, amor e coragem. Confira abaixo cinco músicas de resistência da ditadura.

1- “Apesar de Você” – Chico Buarque

Chico Buarque foi uma das principais figuras da ditadura. É considerado por muitos o mais engajado dos artistas da época. Tendo sido ameaçado e censurado pelos militares, Chico teve de se auto exilar e criar pseudônimos para expressar suas opiniões através de suas canções.

“Apesar de você” foi lançada em 1970, no auge da ditadura, e com o ritmo esperançoso do samba, dá um recado aos governantes da época, em especial ao General Emílio Médici. O recado dizia que seu povo irá se erguer e que, hoje eles podem estar no comando, mas amanhã vão “pagar e dobrado” por todo o sofrimento que causaram. A música foi lançada como uma “briga de casal” pra driblar a censura, mas seu cunho político é muito claro e mostra a insatisfação do cantor com toda a repressão e ufanismo presentes no país.

Aqui está uma análise completa da música: https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/direito/chico-buarque-e-a-ditadura-apesar-de-voce/25562

2- “Pra não Dizer que não Falei das Flores” – Geraldo Vandré

Se Chico Buarque é considerado o músico mais influente da ditadura, “Pra não Dizer que não Falei das Flores” é provavelmente a música de protesto mais importante da época, servindo inclusive de hino durante todos os anos de opressão. A música foi lançada em 1968 e concorreu no Festival Internacional da Canção Popular (FIC) da Rede Globo. Ela ficou em segundo lugar (perdendo para Sabiá de Chico Buarque e Tom Jobim) mas foi notoriamente a preferida do público, que ovacionou a apresentação de Vandré enquanto vaiava a vitória de Sabiá. Nunca se havia ouvido uma música que atacasse tão diretamente o regime e os militares e ela rapidamente virou um hino da resistência, sendo inclusive responsável por acelerar a instauração do AI-5, o ato mais rígido da ditadura.

Geraldo Vandré, no entanto, não permaneceu tão querido quanto Chico e outros artistas da década de 70. Uma figura emblemática até hoje, Vandré voltou ao país após anos de exílio (vítima de ameaças e perseguição após lançar a música) mudado. Decidiu que só faria músicas que falavam de amor e inclusive compôs “Fabiana” em homenagem à Força Aérea Brasileira (FAB). Depois largou a vida pública e passou a viver como advogado. Muitos acreditam que ele enlouqueceu por conta de torturas que teria sofrido antes de ser exilado, mas Vandré negou ter sido torturado numa de suas poucas entrevistas atuais.

Aqui está uma análise completa da música: https://www.culturagenial.com/musica-pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-flores-de-geraldo-vandre/

3- Alegria, Alegria – Caetano Veloso

Depois de Chico Buarque, Caetano Veloso é o segundo nome que aparece quando se fala de ditadura (seguido logo após por Gilberto Gil!). Apesar da timidez no palco, Caetano era ativo e inquieto em seus anos de juventude. Responsável por criar o Tropicalismo, movimento musical que se instalou no Brasil nos anos 70, Caetano conseguia misturar em suas músicas o velho e o novo, bem como uma infinidade de estilos e sons. O movimento, assim como seu criador, era super engajado na política.

“Alegria, Alegria” é considerada a música de abertura do Tropicalismo, e é uma das mais famosas do Caetano Veloso. O cantor apresentou a música em um festival da TV Record em 1967 e ganhou a adoração do público (que estava favoritando cantores concorrentes) em seus 3 minutos de duração. Tanto a letra como a melodia foram criadas pra se relacionar com os aspectos populares do país na época. Caetano tinha a intenção de criar uma música misturando uma marcha como em “A Banda” do Chico Buarque com o pop contemporâneo, e aproveitou para criticar a situação alienada em que se encontrava o povo Brasileiro, lendo sempre as mesmas notícias filtradas nos jornais que nunca mostravam a real violência da época. Ele também protesta a favor do direito de ir e vir assim como insiste que irá lutar e persistir contra o que está sendo imposto com “Caminhando contra o vento” e “Eu Vou!”.

Aqui está uma análise completa da música: https://youtu.be/PTYtASVmeng

4- O Bêbado e o Equilibrista – Elis Regina, João Bosco e Aldir Blanc

Composta por João Bosco e Aldir Blanc e interpretada na voz radiante de Elis Regina, “O Bêbado e o Equilibrista” é uma série de homenagens. Primeiro, ao Charlie Chaplin, que havia morrido no Natal de 1977, e cuja imagem João Bosco queria unir à situação musical do Brasil, por isso comenta que o bêbado da música lembra o Carlitos, personagem do cineasta. Em seguida, pede pela volta do irmão do cartunista Henfil, um sociólogo exilado no México por conta da ditadura. Depois, às Marias e Clarices do Brasil, que faziam referência as mulheres de Manuel Fiel Filho e Vladimir Herzog, mortos pelo regime, bem como a todas as mulheres aflitas com seus familiares perseguidos. Por último a música homenageia o povo brasileiro, com frases como “Pra noite do Brasil, meu Brasil, que sonha…” e “Chora a nossa pátria mãe gentil”.

Elis Regina, apesar de não ter sido compositora, ficou internacionalmente conhecida pelo seu talento e controle da voz. Além disso, era uma exímia caçadora de talentos, e escolhia pessoalmente suas músicas, lançando as carreiras de diversos compositores (como o próprio João Bosco). Apesar de ter vivido pouco (morreu aos 36), viveu intensamente. Era conhecida por ser autêntica e por, nas palavras da Andreia Horta (que viveu a Elis em um filme dedicado a cantora), “dizer o que tinha de ser dito”, mesmo tendo sua carreira quase inteiramente situada na época da ditadura.

Aqui está uma análise completa da música: https://jornalggn.com.br/blog/joao/conheca-a-historia-de-o-bebado-e-a-equilibrista

5- Cálice – Gilberto Gil e Chico Buarque

Mais uma do Chico Buarque, agora em parceria com Gilberto Gil, outro compositor essencial da época. Gil, assim como Caetano (seu amigo de faculdade e com quem passou anos exilado em Londres), foi essencial pro movimento Tropicalista. Foi Ministro da Cultura de 2003 a 2008 e é considerado um dos maiores compositores do Brasil.

Cálice apresenta duas versões: uma original e uma censurada. A censura se deu devido as estrofes, repletas de referências bíblicas e contemporâneas, que denunciavam a repressão e censura da ditadura. Segundo os compositores, essa repressão criava um cenário intragável, amargo e difícil de engolir pro povo, principalmente os artistas. A repetição da palavra “Cálice”, porém, passou despercebida como uma referência a Cristo, e os censores permitiram que ela fosse cantada junto a melodia em um show de 1978. O que não esteve claro até então é que “Cálice” brincava com o duplo sentido fonético da palavra, que quando repetida fora de contexto se assemelhava a “Cale-se”. Ao perceber isso, a gravadora Phonogram, que organizou o show tentou cortar os microfones, mas Chico e Gil seguiram tocando até que não pudessem mais serem ouvidos.

Aqui está uma análise completa da música: https://www.culturagenial.com/musica-calice-de-chico-buarque/

 

 

 

 

A ditadura foi um das páginas mais sombrias da nossa história. As torturas, o medo, a opressão, foram provas do descaso com a liberdade e com os direitos humanos. Trinta e três anos depois, é importante celebrar as bravas mentes que confrontaram o sistema e passaram mensagens de liberdade e conhecer os horrores do regime para impedir que algo similar volte a acontecer.